Cinco décadas passaram
e há inesquecíveis fatos
de minha primeira infância
que recordo intensamente,
em imagens e sabores,
em nomes e sons e odores,
mais do que fatos recentes,
os quais já vou esquecendo.
Minha primeira lembrança
encontra-me ainda no berço
pulando de alegria
ao ver meu pai que voltava
de viagem a negócios.
Era eu ‘inda pequeno
e adormecia bem cedo,
antes de meu pai chegar.
Minha mãe e sua mãe,
terminando de guardar
louça usada no jantar,
me acolhiam com carinho
e mostravam-me o doce
que trouxera-me o meu pai.
Eu comia um pedaço
e ia p’ra minha cama
a retomar o meu sono.
‘Inda sinto o sabor
do pão-de-mel marca Pan,
do guarda-chuva e cigarro
e da moeda dourada,
tudo feito em chocolate.
Posso sentir o sabor
e o aroma até hoje,
o que leva-me à infância,
a um tempo em que mi’a vida
era sem preocupações,
vivida a cada dia...
e o tempo corria lento.
Lembro de olhar as nuvens
a descobrir-lhes figuras,
e de tantas brincadeiras
que hoje crianças não brincam.
Onde Diva andará,
a primeira professora?
Não me restou dessa fase
sequer um dos meus amigos –
inseparáveis amigos –
pois a vida afastou-nos.
Minha mãe amava festas
e visitas receber
na casa que sempre estava
em reforma e aumentando.
Talvez por isso morreu
no dia de Réveillon –
e aniversário do pai –
reunindo em torno a si
todos que um dia amara.
Foi minha primeira dor
e uma das mais profundas.
Distam anos tais lembranças,
mas permanecem comigo,
talvez por terem forjado
muito do que hoje sou.
Quando olho para trás,
para tudo o que eu tive
e para aquilo que fui,
só lamento ter perdido
o coração inocente,
pois o que trago em meu peito,
pelo tempo endurecido,
de mi’a face fez sumir
o que a ela iluminava:
o meu sorriso sincero
que não encontro no espelho
e nem em fotografias.
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